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Novos meios, velhos desejos

 
Gustavo Aleixo, Léo Rodrigues e Vítor Moreira | 01/07/2008 Notícia publicada pela Revista Outro Sentido,
publicação experimental do Curso de Comunicação Social da UFMG

A Internet tornou-se nos últimos anos o meio mais fácil de circulação de informações, um lugar ilimitado em que as pessoas compartilham idéias e experiências. O mundo se digitaliza mais a cada dia, e as próprias relações humanas são levadas a ocupar o ciberespaço.

Os espaços virtuais de relacionamento instauraram o que se pode chamar de uma revolução dentro da revolução. Uma nova forma de interação que foi iniciada com as salas de bate-papo e estendeu-se ao ICQ, MSN, Orkut, Second Life. A questão da sexualidade tomou de assalto esses espaços, passando a figurar no mundo virtual com uma importância semelhante ou superior àquela que lhe é dispensada no mundo real. Em seu livro “A estrada do futuro”, Bill Gates afirma que há mais especulação sobre sexo virtual do que sobre qualquer outro assunto de realidade virtual. “O conteúdo sexual é tão velho quanto a própria informação. Nunca demora muito para se descobrir como aplicar qualquer tecnologia nova ao mais velho dos desejos”, afirma o dono da maior empresa de informática do mundo.

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Entrei na sala de bate-papo com o apelido de Luis BH. Ao observar os presentes na sala, tive o primeiro choque: pelo menos 80% utilizavam codinomes masculinos. Muito homem para pouca mulher! Nas minhas primeiras abordagens, fui um fracasso completo. Primeiro, falei para todos que estava disponível para sexo virtual. Ninguém respondeu. Comecei, então, a enviar mensagens reservadas para as poucas mulheres. Nada, também...

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De acordo com pesquisa do Ibope, realizada em fevereiro de 2000, num universo de 25 mil respostas, 78% consideraram questões de sexualidade na Internet de “interessante” a “muito interessante”. Uma outra pesquisa, realizada pela Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana, apontou que 65% dos internautas já fizeram alguma forma de sexo pela Internet. Afinal, por que tantas pessoas buscam prazer por meio do cibersexo? “Porque ele concede um espaço de liberdade que é vedado ou está restrito na vida cotidiana”, esclarece Francisco Coelho dos Santos, professor do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG.

A explicação do professor parece encontrar comprovação prática. Roberto (nome fictício) tem 33 anos. É casado, tem duas filhas e mora em Blumenau, Santa Catarina. Pelo menos uma vez por semana, ele navega em salas de bate-papo na Internet em busca de parceiras virtuais. Roberto afirma que o sexo virtual é uma forma de extravasar fantasias que não tem coragem de compartilhar com a esposa. “Posso xingar palavrões, imaginar lugares exóticos. É praticamente como encarnar um personagem”.

Ao falar das características da identidade na pós-modernidade, o sociólogo jamaicano Stuart Hall, docente da Universidade de Birmingham, escreve que o sujeito pós-moderno não possui uma identidade única, mas que, ao contrário disso, possui identidades editadas conforme a necessidade do contexto. “Esta concepção encontra nas salas de bate-papo virtuais um ambiente propício, onde o sujeito pode ser aquilo que desejar, inclusive ele próprio, desde que o contexto seja conveniente”, afirma Maria Vittoria Pardal Civiletti, professora de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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Depois de familiarizado com a dinâmica do chat e com a linguagem utilizada, saí e retornei com o nome de Rafael B.
Estabeleci contato com uma mulher com o nick de Cris e a coisa começou a ir bem entre nós. E picante também.
- Isso, chupa meus peitos!! Morde! Vou tirar a calcinha... quero que você faça sexo oral em mim!
- Assim tah bom??
- Tah ótimo... AAAAAAHHH!!!
Um tempo depois, Cris saiu repentinamente da sala, me deixando uma última mensagem:
- Peraí, vou pegar um whisky para nós. E um gelo para você passar em mim.

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Ironicamente, a possibilidade de multi-identidades que o mundo virtual possibilita também é seu próprio calcanhar de Aquiles. Como saber se você está conversando com uma pessoa real? “Na Internet, a ausência de marcadores sociais permite um jogo com as identidades que coloca os ciberamantes na permanente iminência da ilusão. Uma amante adulta bem pode ser uma adolescente teclando o computador do colégio, rodeada de colegas que se divertem com a situação, ou mesmo um homem idoso”, comenta Francisco Santos.

Já Roberto diz que aqueles que praticam sexo virtual com freqüência sabem identificar as fraudes. “A linguagem, o modo de abordagem, logo se vê quem não é dali”. Mas e aqueles que já possuem certa experiência e resolvem fingir ser pessoas do sexo oposto? Nesses casos, ele admite que é mais complicado saber se está sendo enganado ou não. Roberto nega que já tenha tido relações com homens ou homossexuais que se passaram por mulheres, mas afirma que isso já aconteceu com um amigo. “Quando ele estava quase chegando ao orgasmo, a pessoa com quem teclava admitiu ser gay. É uma ducha de água fria. Mas acontece”, conta.

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Comecei a teclar com Bianca. Pouco depois, Cris voltou e começou a conversar com outro cara. Protestei, mas resolvi deixar pra lá.
Bianca já havia me dito que era loira, 1,67m, 54kg. Disse-me também que era de Poços de Caldas (finalmente alguém de Minas Gerais).
- O que você me mostraria em Poços de Caldas?
- Muitas coisas.
- Quero conhecer um lugar deserto, onde possamos ficar a sós.
- Tem uma cachoeira muito bonita. Eu te levo lá.
- Como você estará vestida?
- De biquíni.
O diálogo desenrolou. Pedi um beijo, ela disse que ia tirar o biquíni. E depois de uma conversa picante, mas nem tão vulgar, Bianca me disse o que nenhuma outra tinha me dito ainda: “gozei”.

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Nas interações sociais no universo cibernético, assim como na relação interpessoal direta, as pessoas tendem a se aglutinar em grupos de afinidades. Salas de bate-papo, por exemplo, são distinguidas por assuntos, como cinema, música, religião.

Quando o que está em pauta é a sexualidade, as distinções também estão presentes. Sites com chats exclusivos sobre sexo, como UOL e Terra, oferecem opções de salas de bate papo temáticas, divididas em sexo virtual, casais, homossexuais, sadomasoquistas etc. Francisco Santos explica que essas são divisões já existentes na sociedade. “Você vai para a rede porque ela permite que você otimize os encontros, as práticas. Mas ela não cria nada em termos de preferência sexual”.

Outra comparação dos mundos real e virtual que o professor faz é sobre o fato dos chats de sexo serem dominados, quase sempre, por homens. “Os homens são mais atirados e mais dados a aventuras. É possível que as mulheres sejam mais moderadas em relação a isso. Talvez a explicação seja facilmente encontrada na maneira diferente como homens e mulheres encaram a sexualidade, independentemente do meio”.

Roberto também acha que o “homem é mais tarado”. O catarinense revela que suas incursões pelo cibersexo são feitas sempre do escritório onde trabalha, para não despertar a desconfiança da esposa. “Costumo fazer hora-extra com freqüência. Quando o pessoal vai embora mais cedo e eu fico sozinho, aproveito a oportunidade para navegar pelas salas”, conta.

Ainda que recheado de tabus, o advento das novas tecnologias que “aproximam” cada vez mais as pessoas parece indicar uma coisa: o sexo virtual veio para ficar.

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Começamos a conversar pelo MSN e Bianca (que na verdade se chamava Kelly) me contou que aquela havia sido sua primeira experiência de sexo virtual. Resolvi, então, me revelar, contando que era estudante de jornalismo e estava escrevendo uma matéria sobre o assunto. Pedi seu e-mail para que pudesse enviar algumas perguntas e nos despedimos.
Antes de ir para cama, voltei ao chat para ver se Cris ainda permanecia online. Lá estava ela. Também expliquei o que estava fazendo e pedi um e-mail. Surpreendentemente, ela me passou o telefone, com DDD do Rio Grande do Sul. Disse que seria impossível fazer um interurbano naquele momento. Ela respondeu dizendo que eu poderia ligar a cobrar e completou:
- Sexo por telefone também é muito bom!. Com você eu topo...

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  • Leia também o relato completo do jornalista que se aventurou no sexo virtual
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    O EDITOR


    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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