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Entrevista: Bernardo Kucinski discute mídia e promoção da saúde

 
Léo Rodrigues | 26/10/2011 Entrevista publicada pelo portal da Faculdade de Medicina da UFMG

A relação entre a mídia e a saúde irá nortear os trabalhos do Eixo 7 do 2º Congresso Nacional de Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG, que será realizado entre os dias 3 e 5 de novembro em Belo Horizonte, no Minascentro. Uma das presenças mais aguardadas é Bernardo Kucinski, jornalista, cientista político e professor da USP. Ele participará da mesa-redonda O Diálogo (Im)Possível: Jornalistas e Profissionais de Saúde, às 14h30 do dia 3 de novembro. Na entrevista abaixo concedida ao jornalista Léo Rodrigues, ele adianta algumas questões que serão abordadas.

Hoje em dia, as revistas de circulação nacional têm oferecido, com frequência, grandes reportagens sobre temas ligados à saúde, muitas vezes como destaque de capa. Esse fenômeno é reflexo do interesse da sociedade por notícias de saúde? O que explica esse interesse?

Eu não tenho conhecimento de algum trabalho específico com metodologia científica que aborde essa questão. Mas é possível especular. Eu considero que há três fatores que podem explicar o aumento do interesse por notícias de saúde. O primeiro é o envelhecimento da população. É do perfil de pessoas mais idosas se preocuparem mais com a saúde. O segundo fator é o culto ao indivíduo, fenômeno que é próprio dessa era neoliberal. O individualismo estimula uma preocupação demasiada com você mesmo, e a forma mais concreta de manifestar essa preocupação é dar grande atenção ao seu corpo. Disso resulta que a maior parte das reportagens em saúde está relacionada com a estética. O terceiro e último fator é a erotização da vida pós-moderna, que novamente fomenta a preocupação com o corpo.

A abordagem de outros assuntos da área da saúde é prejudicada pelo excesso de reportagens sobre a estética corporal?

Pelos motivos que eu já expus, o corpo da sociedade gera menos interesse que o corpo pessoal e, por isso, não há uma cobertura da saúde pública no mesmo grau que a cobertura das questões estéticas. Um fenômeno que se observa hoje é a ascensão das revistas femininas. Não tanto em tiragem, mas em quantidade de títulos. Há uma infinidade de publicações semelhantes voltadas para a estética e a beleza. E nessas publicações, o jornalismo se mistura com a propaganda. A propaganda se tornou leitura, é informativa, se confunde com a reportagem. E os grandes anunciantes são os produtores de cosméticos. Há um apelo para o consumo dos cosméticos. Nas farmácias, a área dedicada a eles costuma ser muito superior à destinada a outros tipos de produtos. E estas revistas femininas se disseminam num momento em que outras revistas especializadas estão em crise. Elas acabam sendo um veículo para promover os cosméticos.

O senhor já defendeu, em um artigo, que a cobertura jornalística tem foco nas manifestações das doenças e não nos processos sociais de produção da doença. Porque isso acontece e qual a importância de se inverter esse enfoque?

Eu creio que esse não é um problema limitado ao jornalismo, porque o próprio sistema de saúde é focado no tratamento. Os procedimentos médicos são quantificados em cima da cura e do tratamento. Não há um trabalho sistemático voltado para promover o bem-estar do ser humano. Até porque o capitalismo busca transformar tudo numa mercadoria e, na saúde, ele consegue fazer isso de forma eficaz com o tratamento e o medicamento. Transformar bem-estar em mercadoria é bem mais difícil. Por isso, eu não acredito na possibilidade de inversão completa desse enfoque. Por outro lado, quando se propõe abordar a promoção da saúde, que é o tema do Congresso, nós estamos dando um passo na direção de diminuir a incidência do foco no tratamento. Por enquanto, eu vejo a questão da promoção da saúde como um esforço de reflexão filosófica, em eventos científicos, médicos, etc. Ainda é necessário abrir mais os horizontes e conceber ações de saúde quantificáveis. Um exemplo concreto é a recente proibição de fumar em lugares fechados, que tem como consequência a economia de milhões de reais na área da saúde. Da mesma forma, limitar os índices de emissão de gases pelos automóveis, controlar a presença de gordura trans nos alimentos e impor padrões adequados de moradia – boa iluminação, pouca exposição à poluição, etc. – são possíveis políticas públicas que são quantificáveis.

As diferenças de linguagem criam em muitos médicos e professores de medicina o receio de conceder uma entrevista à imprensa, apontando o risco de distorção de suas palavras. Como equacionar essa questão?

É difícil responder, porque esse é um problema que se verifica igualmente na interação do jornalismo com outras áreas. Os economistas, por exemplo, também fazem essa reclamação. Mas, na medicina, essa relação é mais conflituosa porque sua linguagem é muito rigorosa. O que eu tenho observado é que, na tentativa de equacionar essa questão, os hospitais e mesmo as clínicas menores recorreram às assessorias de comunicação. Hoje, quase todas as instituições médicas possuem assessorias. E os profissionais que atuam nelas estabeleceram como ideologia central a importância da clareza da informação para com o público. E nesse sentido, filtram os médicos que conseguem se expressar melhor e são mais concisos, e os instruem. Por outro lado, eu tenho observado que a qualidade do jornalismo tem se deteriorado nos últimos anos, o que cria novos conflitos. Os jornalistas hoje estão menos informados e mais sobrecarregados. Às vezes, eles têm muitas pautas para cobrir num mesmo dia, e não dão a devida atenção para compreender uma informação corretamente.

A imprensa é o melhor meio para os professores de medicina de universidades públicas retribuírem o investimento realizado pela sociedade? Seria falta de dever cívico se negar a compartilhar, por meio da imprensa, os seus conhecimentos e os resultados de suas pesquisas?

O funcionamento de um sistema de comunicação pública é pré-requisito para o caráter democrático de uma sociedade. E neste sistema todos os especialistas deveriam estar prontos a prestarem esclarecimentos, estejam eles onde estiverem. Logicamente, o mundo acadêmico tem regras e dinâmicas próprias, fazendo surgir ciúmes, disputas, etc. É o que faz com que alguns professores não queiram se expor na imprensa, o que eu acho um equívoco. Nós temos avançado para uma noção da comunicação pública enquanto um direito do cidadão. Mas para que a comunicação pública funcione, todos devem participar. Qualquer médico que for convocado, por exemplo, no caso de um surto epidêmico, precisa estar apto a dar orientações e informações sobre aquilo que é assunto de seu conhecimento.

Qual o impacto que os novos meios de comunicação virtual – blogs, sites de relacionamento e outras mídias especializadas em saúde – causam na circulação de informação sobre saúde?

Eu considero que nós estamos vivendo a maior revolução da história da comunicação e eu pretendo dedicar parte da minha exposição do Congresso a essa questão, que é de interesse de toda a sociedade. É uma revolução que acaba com o monopólio do jornalismo na mediação da comunicação, por exemplo, entre o médico e a população. A comunicação agora pode ser realizada de maneira direta. Pode também ser mediada de diversas outras formas, através das novas ferramentas virtuais. Além disso, com a pluralidade de vozes na internet, uma reportagem pode ser logo contestada por diversos usuários. Isso afeta a autoridade do jornalista. Mas não só a dele. Afeta também a autoridade do médico. Vai havendo menos espaço para o médico que esbanja soberba, que explica as coisas de forma ininteligível. Porque, cada vez mais, o paciente já tem informação prévia. Ele pesquisa sobre a doença, sobre os medicamentos e chega ao consultório em condições de dialogar e não apenas de aceitar a autoridade médica. É claro que o excesso de informações disponíveis também traz preocupação com a qualidade destas informações. Uma proposta que vem sendo discutida nesse sentido é a criação do “Selo Médico”, que seria concedido aos sites confiáveis. Para isso, seria necessário criar um serviço de fiscalização e autenticação ligado ao Ministério da Saúde ou ao Sindicato dos Médicos.

O tema deste 2º Congresso Nacional de Saúde é a promoção de saúde, que significa voltar as atenções para o indivíduo em seu estado sadio. Em outras palavras, é pensar como tornar as pessoas, a sociedade e as instituições mais saudáveis. A mídia tem alguma contribuição para oferecer na promoção da saúde?

A mídia pode contribuir de duas formas. A primeira é cumprindo a sua função tradicional de cobrar respostas das instâncias políticas para certos problemas da sociedade. Ela pode exercer sua pressão por políticas públicas voltadas para a promoção da saúde, que resultem na diminuição da demanda de atendimento dos hospitais. A outra forma de contribuir é através do esclarecimento. Para isso, é necessário criar uma agenda positiva, abrir uma janela que não seja destinada a ficar reportando somente o desastre.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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