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O lugar do esporte na Comunicação Pública: a cobertura na EBC

 
Priscila Raquel Crispi ** | 18/07/2014 Notícia veiculada na Revista do Conselho Curador da EBC

** A 3ª edição da Revista do Conselho Curador da EBC (clique aqui para acessar o PDF completo da publicação) se debruçou sobre a temática da cobertura esportiva. Um dos entrevistados pela reportagem foi o editor de A Lupa, Léo Rodrigues, que falou das atividades que desenvolveu no Portal EBC e que vem desenvolvendo na TV Brasil, além de apresentar contribuições para o debate em torno deste assunto.

 

A cobertura esportiva no Brasil é um serviço tão incorporado ao cotidiano de redações e público que discuti-la pode parecer redundante. Mas, é o caso de se pensar: a dimensão cultural, econômica e política do desporto tem sido alvo de análise profunda pelas equipes jornalísticas? O debate em torno dos direitos de transmissão está esgotado? Qual o papel da mídia na engrenagem que faz o negócio esportivo prosperar? Tantas questões em aberto apontam para a necessidade de levar a discussão em torno da cobertura de esportes mais a sério.

Murilo Ramos, membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), acredita que o esporte é, quase sempre, tratado na base do palpite. “Uma visão impregnada no meio jornalístico faz com que você fique olhando muito mais para o espetáculo e não se aproxime do esporte como um assunto do dia, como é a economia ou a educação. É como se você cobrisse educação superior só falando de vestibular”, compara. Segundo o conselheiro, que é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, falta nos noticiários brasileiros um olhar processual sobre o tema, que não limite seu foco aos eventos esportivos. Na sua visão, entre o espetáculo e o interesse público, a balança acaba sempre pendendo para o primeiro, enquanto deveria-se buscar o equilíbrio.

Para Juca Kfouri, jornalista, abordar os assuntos que estão ao redor do entretenimento não significa abdicar da emoção, mas certamente qualifica a cobertura. “Quem disse que não pode falar de Brasil na editoria de esporte? ‘Ah, está politizando uma coisa que é entretenimento’. É entretenimento na hora que está acontecendo o jogo, mas está dentro de um todo que não pode não aparecer”, diz.

No duelo entre jornalismo e entretenimento, não é questão fechada os momentos em que ambos devem aparecer isolados e quando podem andar juntos. “Um evento esportivo tem interesse jornalístico, mas acaba sendo espetáculo. Temos que tratar o esporte como evento [nas transmissões], e como cobertura jornalística nos jornais. São duas coisas diferentes”, afirma Carlos Gomes, gerente do Núcleo de Esportes da EBC.

Para a Diretora de Jornalismo da EBC, Nereide Beirão, os limites não são tão claros. “Não dá pra diferenciar muito uma coisa da outra. Temos repórter no campo, matérias que entram antes dos jogos e entrevistas que acontecem logo depois. Tentamos colocar informações, inclusive, durante as transmissões”, explica.

A questão vai além de demarcações conceituais e toca, na prática, em escolhas editoriais e na alocação de equipes dentro das empresas de comunicação. Na EBC, três plataformas cobrem sistematicamente o universo esportivo: o Portal EBC, as rádios e a TV Brasil. Rádios e TV contam com um Núcleo integrado, pertencente à Diretoria de Jornalismo e responsável pela transmissão dos eventos esportivos. A equipe produz, também, reportagens para os jornais da casa e seus programas esportivos, incluindo questões culturais, sociais e econômicas relacionadas ao esporte. “Eventualmente, a gente ajuda, principalmente com essas matérias de contexto. Mas a maioria do material é do esporte”, garante Nereide.

Segundo Leonardo Rodrigues, repórter da TV Brasil e ex-editor da editoria de esportes do Portal EBC, a redação dos telejornais trabalha em forma de parceria com o Núcleo de Esportes: “na verdade, a equipe de esportes da TV Brasil é muito pequena, não dá conta de toda demanda da cobertura, então a gente complementa”.

Para o jornalista, o ideal seria que a empresa ampliasse a equipe de profissionais que cuidam especificamente de esportes dentro da casa, possibilitando que os mesmos repórteres abordem as questões de fundo dos eventos. “Acho ruim essa divisão porque a cobertura de esportes não pode estar descolada. Isso diz um pouco sobre a EBC não ter um olhar clínico para o esporte”, afirma.

CONFIRA MATÉRIAS ESPORTIVAS PRODUZIDAS PELO REPÓRTER LÉO RODRIGUES:

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  • No caso do Portal, ligado à Diretoria-Geral, uma só profissional – hoje, Nathália Mendes – integra e publica os conteúdos esportivos produzidos por toda casa, além de apurar informações exclusivas para a editoria de esportes do veículo. Para ela, a cobertura esportiva de uma empresa acompanha as suas prioridades editoriais, que no caso da emissora pública é a de subsidiar a formação de opinião do cidadão. “Acredito que não necessariamente devemos negar o entretenimento, mas, enquanto tivermos que optar por um dos dois, por questões operacionais, somos chamados ao compromisso jornalístico”, diz.

    Carlos Gomes, porém, pontua que a exibição de jogos e campeonatos é imprescindível. “O caminho para o esporte na TV pública é ter eventos esportivos, devemos caminhar nessa linha, mas investindo mais em esportes amadores. Temos que ter uma TV que é vista e o esporte pode trazer isso”, defende.

    O gestor afirma que, em 2013, os maiores índices de audiência na TV Brasil vieram da exibição da Série C do Campeonato Brasileiro. Para ele, o público que é conquistado pelo espetáculo, acaba ficando para ver outras programações da emissora. Marcelo Martins, morador de Cambé, no Paraná, é um exemplo que confirma a opinião de Carlos. “Não conhecia (a TV Brasil), comecei pelo Brasileiro da série C, e achei que tem alguns programas interessantes, assim vamos tendo mais uma opção de entretenimento”, conta o telespectador.

    Negócios

    A transmissão de eventos esportivos em emissoras de rádio ou TV vai além da discussão da audiência e tem ligação umbilical com a transformação de práticas lúdicas em esporte de alto desempenho. “O primeiro cara que colocou uma partida no jornal transformou o esporte em profissional. No início, todos os esportes eram amadores. Com os espectadores é que se passa a ter o espetáculo e não só pessoas jogando”, explica Ronaldo Helal, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte.

    Em um artigo publicado em 1994, na Revista USP, da Universidade de São Paulo, o antropólogo Roberto Damatta defende que: “não foi por mero acaso que o esporte como um domínio social (e como uma indústria cultural) tenha surgido acasalado com o advento da sociedade industrial de mídia e de massa”.

    Nesse sentido, a relação entre esporte e mídia gerou não só a profissionalização das modalidades, com o estabelecimento de regramentos claros e instâncias organizativas, mas também um produto cultural que movimenta um mercado poderoso, em todo o mundo.

    Segundo a empresa de consultoria Pluri, o esporte brasileiro movimenta cerca de R$ 67 bilhões, ou seja, 1,6% do Produto Interno Bruto do país e o equivalente ao PIB da Sérvia. Para 2016, a projeção é que, após os Jogos Olímpicos, esse número cresça, passando a representar 1,9% do total da riqueza produzida no Brasil.

    Grande parte da renda de clubes de alto desempenho que alimentam esse mercado vem, justamente, de veículos de comunicação. A transmissão de eventos esportivos é um modelo de negócio interdependente, centrado na venda dos direitos de transmissão das competições.

    Para se ter uma ideia, 32% da receita total do Sport Club Corinthians Paulista – um dos times de futebol que mais faturou na transmissão de seus jogos no ano passado – veio da negociação desses direitos. A fatia é a maior entre todos os ativos de seu orçamento.

    A regulamentação brasileira, diferente de outros países, como a Argentina, não privilegia veículos públicos na exibição de jogos, nem mesmo de seleções nacionais. Com o orçamento reduzido e uma distribuição de sinal ainda pouco atrativa para times e entidades organizadoras, como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), emissoras públicas acabam ficando de fora da disputa. “É um absurdo uma emissora pública ter que pagar pra dar ao público acesso aos eventos. Nós sequer podemos entrar nos estádios”, protesta Philipe Deschamps, coordenador da equipe de transmissões do Núcleo de Esportes da EBC.

    Juca Kfouri ressalta a importância de investir em formas alternativas de cobertura esportiva. Para denunciar os esquemas de corrupção por trás do negócio esportivo, um bom jornalismo investigativo. Para driblar a impossibilidade de acesso aos jogos, promoção de campeonatos alternativos, até mesmo de várzea. Para combater o monopólio dos direitos de transmissão, cobertura política do tema e, quem sabe, ações judiciais.

    “Não tenho nenhuma preocupação de dizer que, hoje, a cobertura esportiva de TV aberta é mais chapa branca que a cobertura política. As empresas de comunicação (...) não são críticas em relação à Fifa, à CBF, porque de alguma maneira se associaram a elas para obterem os direitos de transmissão”, diz. O jornalista ressalta: “o mundo do esporte hoje é o mais propício à lavagem de dinheiro, pela intangibilidade dos valores que você trabalha nas transações. É nossa função contar isso pro público”, afirma.

    Carlos Gomes concorda com a importância do jornalismo investigativo no esporte. Pondera, porém, que o orçamento de uma empresa pública não cobre todas as suas necessidades. “Eu acho que tudo que a gente puder fazer pra esclarecer e trazer informação ao público, a gente deveria. Precisamos de um programa de grandes reportagens esportivas. Mas, nosso orçamento não dá pra tudo. Tem coisas que são mais importantes”, defende.

    Sobre a necessidade de ampliação do leque de coberturas, Nathália comenta: “o que acredito que ainda falta à EBC é tomar uma decisão definitiva pela cobertura esportiva, com planejamento, linha editorial, equipe ampliada, pautas diferenciadas – e isso em todas as praças”. Para ela, assim como para Kfouri, a Empresa deveria inovar e transmitir campeonatos de modalidades que não são comuns na TV. Além disso, explorar novos formatos na cobertura do que está amarrado pelos direitos de transmissão, apostando em divisões inferiores.

    Série C

    Desde de 2013, a TV Brasil transmite com exclusividade a Série C do Campeonato Brasileiro de futebol. A decisão pela exibição, segundo o ouvidor-adjunto da EBC, Marcio Bueno, foi “um gol de placa”. Para ele, a iniciativa da TV Brasil contempla uma parcela importante da população, valorizando clubes e torcidas esquecidos pela mídia, além de trazer visibilidade para toda grade de programação da emissora.

    “Mas, para atingir esses objetivos, as nossas transmissões precisam de mudanças profundas. Da maneira como estamos trabalhando, o resultado pode ser o inverso daquele que se pretende alcançar”, alerta Marcio, em sua análise, publicada no relatório da Ouvidoria do mês de abril, sobre a primeira transmissão do campeonato em 2014. O trabalho da equipe que narrou e comentou a partida recebeu manifestações negativas de usuários nos canais da Ouvidoria.

    Em 2013, a Ouvidoria recebeu um total de 7017 mensagens e, destas, 199 referiam-se a esportes e campeonatos. No primeiro trimestre de 2014, foram 1585 contatos, sendo 24 deles sobre a cobertura esportiva da EBC. É um público participante e apaixonado.

    Um dos reclamantes é Marcelo Martins, que comprova a tese de que, sim, a Série C atrai novos públicos, mas eles chegam atentos e criteriosos quanto à qualidade do conteúdo que é veiculado. Marcelo escreveu em sua mensagem para a Ouvidoria que, para se transmitir o Brasileirão, deve haver preparação. “Meus amigos, não invistam dinheiro em algo que não saibam fazer. Os profissionais reclamam dos times da Série C, dizendo que são ruins, mas toda a equipe é nota zero”, protesta.

    Entrevistado, o paranaense comenta que espera da TV Brasil mais profissionalismo e dinamismo na cobertura de eventos esportivos. “Acho que [os comentários] são muito pessoais, os briefings das partidas são malfeitos, e, principalmente falta informação dos comentaristas convidados sobre os clubes, que não estão atentos à realidade atual dos times”, diz.

    Marcio Bueno ressalta, em seu relatório, essa falta de preparo e isenção, por parte da equipe esportiva da EBC, no trato com os times participantes da terceirona. “Em toda a programação, a TV Brasil se propõe a não expressar – e a combater – todas as formas de preconceito e a respeitar as identidades regionais o que, por extensão, inclui as preferências clubísticas, suas bandeiras, escudos, hinos e uniformes. Considerando essas premissas, a transmissão do jogo analisado neste relatório, foi no mínimo problemática”, aponta.

    Além da comparação insistente com times do Sudeste brasileiro, que soou como desprezo para torcedores nordestinos, Marcio destaca a falta de investimento da EBC na transmissão do campeonato, uma vez que o narrador e os comentaristas dos jogos não comparecem aos estádios, mas assistem às partidas diante de um aparelho, no Rio de Janeiro.

    Leonardo Rodrigues concorda, e lembra que, a despeito das enormes torcidas da Série C, a empresa perde oportunidades de trabalhar mais o campeonato em seus conteúdos – como na comemoração dos aniversários dos times, que a EBC deixou passar batido. “A escolha da Série C, pra mim, é totalmente acertada, mas falta planejamento. Compramos os direitos e jogamos [as transmissões] na programação sem nenhuma preocupação. Temos um programa de esporte que debate o futebol de São Paulo e Rio, enquanto deveríamos estar discutindo a Série C”, pondera.

    Nesse sentido, a formação da Rede Nacional de emissoras públicas tem se mostrado uma opção eficiente na promoção da regionalização e da diversidade. Durante a transmissão do jogo analisado pela Ouvidoria, por exemplo, foi um repórter da emissora local que trouxe o contraponto às críticas do comentarista, explicando a tradição por trás do escudo do time, que o profissional da casa acabara de desmerecer.

    “As emissoras parceiras participam da cobertura, produzem material e entram no ar com a gente. Usamos esses repórteres também pra respeitar o regionalismo e valorizar os sotaques. O principal motivador da decisão da EBC de comprar os direitos da Copa do Mundo, por exemplo, foi construir a Rede de rádios, que pode ser usada pra outros fins da comunicação pública”, explica Philipe Deschamps.

    Além do futebol

    A discussão da predominância do futebol na cobertura esportiva precisa passar pela importância dessa modalidade na construção da identidade nacional. Isso porque, antes de ser amado pelo povo e ser símbolo de brasilidade, o futebol foi uma arma poderosa na construção da ideia de nação. “No início da década de 30, após a Semana da Arte Moderna, se começa a pensar na ideia de Brasil. Você tem uma ruptura no pensamento, com Rubens Braga, que fala que a mistura de raças é uma coisa boa do país, e não ruim. Mário Filho, Gilberto Freire e Nelson Rodrigues começaram, então, naquele momento de forte concentração política, a pensar no futebol como elemento de unificação”, explica o professor da UERJ, Ronaldo Helal.

    O acadêmico relembra que a relação entre a valorização do negro, como matriz do povo, e o futebol, que ganhava ares tipicamente brasileiros, solidificou a paixão nacional pela Seleção: “Gilberto Freire tinha uma coluna semanal em um jornal e escreve, em 1938, um texto muito famoso: ‘O futebol mulato’, onde ele explica porque nosso futebol é melhor que os outros – por causa da nossa mistura de raças”. As vitórias da Seleção Brasileira nas Copas que se seguiram consolidaram a mitologia de que nosso futebol é diferente e a seleção passou a ser a grande paixão de todo brasileiro.

    Mas, segundo o pesquisador, a globalização e a ida precoce dos jogadores brasileiros para times do exterior estão modificando a forma como o torcedor enxerga a seleção. “Com a globalização e o declínio dos estados nação, um fenômeno novo passa a acontecer: os torcedores se ligam mais aos seus times locais que à Seleção. Na minha opinião, a Seleção ainda é a pátria de chuteiras, só que chuteiras cada vez menores. Sua influência diminuiu muito”.

    Para o sociólogo, existem outros esportes tradicionalmente praticados por brasileiros, mas que não recebem a mesma atenção que o futebol. “Alguns esportes não estão na mídia e são populares. O brasileiro gosta de vôlei, basquete, regatas. No rio, onde moro, tem mais futevôlei e vôlei na rua que futebol. O negócio é que gente nunca sabe o que vem primeiro – a popularidade do esporte ou a cobertura midiática dele, os dois se alimentam”, comenta.

    Nereide Beirão acredita que a divulgação de novas modalidades esportivas incentiva a prática delas, e que essa é uma função social importante da comunicação pública. “Na medida que a gente dá espaço de divulgação para esportes desconhecidos, você acaba incentivando a democratização e a prática de vários esportes. Nesse sentido, fazemos um pouco de política pública”, diz.

    A diretora afirma que, na cobertura da EBC, não é dado um peso maior ao futebol. Segundo ela, a Empresa cultiva a tradição de cobrir esporte amador, olímpico e paralímpico. “Damos os gols do Campeonato Brasileiro, com atenção especial para a Série C, e cobrimos os regionais mais pro seu final, além de partidas destaque de campeonatos de futebol internacionais. Mas, também fazemos uma cobertura sistemática de outros esportes, do meio para o final dos torneios”, explica. Alguns exemplos de competições alternativas divulgadas pelos veículos da EBC são as ligas de basquete, jogos militares, de inverno e indígenas.

    Apesar de ter a função, determinada pela Lei que a criou, de ser complementar aos sistemas privado e estatal de comunicação, a EBC não deve deixar de noticiar o que os veículos comerciais também dão, na visão de Nereide. “Nosso papel é fazer o que as comerciais não fazem mas não deixar de lado o que todo mundo faz, afinal, o cidadão não tem a obrigação de ver outros jornais além do nosso pra se informar. O que a gente tem que fazer é dar de uma forma diferente e acrescentar, ampliar”, esclarece.

    Philipe concorda: “não é porque a mídia comercial não cobre golf, surf, que vamos fazer. Não é importante pra gente porque são esportes de elite”. O coordenador conta que, nas rádios, os programas esportivos abordam esportes olímpicos, escolares, indígenas e outros, mas confirma que a maioria dos programas falam de futebol. “Tentamos permear a programação com outras modalidades, mas o ouvinte vai desligar se não falarmos de futebol”, defende.

    Na opinião dele e do colega Carlos, a falta de interesse do público por outros esportes está ligada à falta de políticas de Estado para o setor. “Hoje, existe uma ditadura, do futebol nas emissoras comerciais. Mas o interesse do brasileiro pelo futebol é mesmo maior que pelos outros esportes. Não temos uma política pública de esportes, então, o futebol é uma questão de cultura esportiva, não tem como fugir disso”, diz o gerente.

    Em oposição, Leonardo defende que a falta de investimento por parte do governo não pode ser desculpa para a falta de cobertura da comunicação pública. “Nosso jornalismo não deve se pautar só por aquilo que está emanando do poder público, acho isso, inclusive, sintomático. Em que pese que os outros esportes não têm a popularidade do futebol, eles têm adeptos. Só porque não tem política pública pra eles, não vamos cobrir? Pelo contrário, vamos denunciar que não tem”, propõe.

    Para o repórter, a EBC deve exercitar um olhar independente das ações do governo, o que refletiria no aumento da qualidade, inclusive, do jornalismo esportivo da casa. “Acho que a gente deveria ser mais crítico com as coisas. Existe uma preocupação das chefias de dar ouvidos a todos os lados, que é justa, mas pode ser aplicada de maneira errada. A gente vai ouvir o órgão público e eles não querem falar, então não damos a notícia. Isso não pode inviabilizar a cobertura. Às vezes não temos a resposta oficial, mas tem uma crítica importante ali colocada”, conta.

    Leonardo acredita que a falta de ousadia na produção das notícias pôde ser observada na cobertura da Copa do Mundo, que a EBC vem realizando. “Não sei se existe uma pressão do governo para não sermos tão críticos com a Copa, mas a gente vê outros matéria de capa veículos fazendo e a comunicação pública, que deveria cumprir esse papel de maneira mais contundente, não faz”, aponta.

    Juca Kfouri comenta que a Copa do Mundo no Brasil é uma oportunidade rara para a comunicação pública fazer telejornalismo esportivo com independência, liberdade e senso crítico. “E esse papel é um papel que só aqui se pode fazer. Não se fará em nenhuma TV comercial, porque irá contra demais os interesses dos patrocinadores”, explica.

    “Vamos ter duas Copas do Mundo no Brasil, uma no campo e outra nas ruas. Vamos ter que olhar pra essas duas copas. Vamos ter, provavelmente, uma lindíssima festa dentro dos estádios, e uma situação de tensão fora deles, agravada ou não, de acordo com o desenvolvimento da própria competição”, aposta Kfouri, e completa: “é missão de uma TV pública discutir como é que estamos recebendo uma Copa e vamos receber uma Olimpíada, se até hoje sequer uma política esportiva a gente tem”. O Ministério dos Esportes foi procurado para esclarecer questões da política de esportes no Brasil, mas não quis dar entrevista à Revista do Conselho Curador.

    Para a jornalista da casa e coordenadora da Radioagência Nacional, Juliana Nunes, a cobertura da Copa do Mundo pela EBC tem sido um aprendizado pras equipes. “Alguns temas temos coberto bem, outros não, mas vamos sair mais prontos pra fazer a conexão entre a cobertura factual e as questões de fundo”, acredita.

    No contorno do campo

    As manifestações de junho passado contra a realização da Copa do Mundo da Fifa no  Brasil colou, definitivamente, o noticiário político com o esportivo. Nas bancadas dos jornais, comentaristas até tentam focar sua abordagem no esquema tático da Seleção Brasileira, mas não há como deixar de mencionar os protestos, que, muitas vezes, influenciam o que acontece dentro do campo.

    “Não somos o país do futebol, mas somos provavelmente o país da Copa. Em nenhum outro lugar do mundo, você vê o tipo de confraternização que se vê no Brasil em dia de jogo da Seleção na Copa”, conta Kfouri. Para ele, a intenção do governo de realizar uma grande festa, que contasse com o apoio apaixonado do povo, acabou se tornando um fator de mobilização: “é claro que as manifestações não foram contra a Copa das Confederações, mas ela foi a gota d’água que transbordou o copo, de um país que olhou pra seis novos estádios e disse: ‘opa! Se somos capazes de fazer arenas tão belas, porque não somos capazes de fazer escolas, hospitais e sistemas de transporte público desse tipo?’”.

    Para dar conta desse contexto, a EBC aposta na cobertura jornalística de ações políticas na área do esporte. A Agência Brasil, por exemplo, não acompanha eventos esportivos sistematicamente, mas a política pública em torno do fortalecimento do esporte. Lana Cristina, gerente da Agência, esclarece que o tamanho da equipe até influência, mas a decisão pela não cobertura é mesmo editorial. “Eventualmente, em grandes eventos, damos os resultados e o que ocorre em seu entorno ou, ainda, quando há um assunto de destaque envolvendo a classe de atletas”, explica.

    “Três semanas antes da Copa, publicamos matérias em torno do evento, tratando de assuntos como acessibilidade, mobilidade, comunicação, proteção de crianças e adolescentes, serviço, segurança, saúde, educação e turismo”, conta Lana. A mesma linha de cobertura para o mundial foi seguida pelas equipes de radiojornalismo e telejornalismo da casa.

    Coordenado pela Radioagência Nacional, o especial “Direitos das crianças no país da Copa” foi um destaque na cobertura social do evento. Foram realizadas matérias nas 12 cidades sedes para verificar quais violações relacionadas aos direitos de crianças e adolescentes ocorrem nesses lugares, e como a Copa pode ter aprofundado o problema. Além disso, as reportagens procuravam observar se o direito à prática de esportes vem sendo garantido ou não no país e como o racismo opera no contexto esportivo.

    A proposta foi ganhadora do Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo 2014, da Agência Andi, que premia com um valor em dinheiro sugestões de pautas que promovam os direitos da infância. “Nos escrevemos, ganhamos o prêmio, mas o projeto inicial já previa a contrapartida da EBC, foi uma coprodução. Houve um investimento grande da Empresa, no mínimo o dobro que recebemos”, diz Juliana Nunes.

    O projeto, que foi produzido durante cinco meses, contou com o apoio de 30 pessoas de várias áreas da Empresa, entre jornalistas, produtores, sonoplastas, fotógrafos, narradores e profissionais que construíram a plataforma online de disponibilização do conteúdo. “O especial nasceu pra ser das Rádios, depois fomos agregando com a Agência Brasil. Trocamos figurinhas com o Caminhos da Reportagem [programa de grandes reportagens da TV Brasil] e fizemos um curso na Andi com eles. Foi um momento de aprendizado e troca de experiências”, lembra Juliana, que acredita que, num trabalho multimídia é importante definir o veículo prioritário para, então, se adequar o material aos outros, através da edição.

    Coordenando empregados de várias equipes, Juliana teve algumas dificuldades para organizar as equipes de modo que as pessoas tivessem dedicação exclusiva, mas aprendeu que a produção multimídia e integrada é essencial na cobertura aprofundada dos temas. “Precisamos avançar para priorizar coberturas especiais. Isso demanda muito, porque desfalca as equipes. Mas precisa haver esse entendimento de uma nova forma de trabalhar, sair das caixinhas. É legal você misturar, quem cobre  esportes e quem cobre infância, política pública, senão você fica com um olhar só”, diz.

    No Conselho

    Na visão de Murilo, o Conselho Curador é um aliado atento na construção de uma estratégia para cobertura de esportes dentro da EBC: “acho que esse debate está inserido no pleno. É só lembrar que foi um parecer do Conselho que validou a compra da Série C e que aprovou a Política de Esportes da Empresa. Enxergamos a problemática dos direitos de transmissão na época, e hoje ainda temos essa sensibilidade para o tema”.

    Os documentos que regulamentam a linha editorial da EBC para o tratamento do esporte são os planos de trabalho anuais (confira o de 2014 aqui), o Plano de Cobertura da Copa do Mundo, o Plano Editorial da Agência Brasil, o Manual de Jornalismo e a citada Política de Esportes. Trazem valores como priorização do esporte na cobertura jornalística, complementariedade dos sistemas de comunicação, integração de plataformas, inclusão social e cultura, pluralidade de temas e modalidades, inovação, abordagem diferenciada e diferenciação entre o esporte de alto desempenho e o amador, devendo a prioridade da cobertura ser dada ao esporte que o cidadão pratica e não ao que vê.

    “Acho que ainda não fazemos isso. Essa não é uma crítica pela crítica e não se limita à EBC, o jornalismo esportivo em geral faz tudo da maneira clássica – e a EBC não faz diferente”, diz Murilo.

     

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    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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