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Muros que debatem

 
Léo Rodrigues | 08/06/2009 Notícia publicada pelo jornal Boletim, da UFMG

Dissertação estuda os diálogos públicos estabelecidos por pichações, grafites, stickers e outras manifestações

Sujeira, poluição visual, vandalismo, destruição do patrimônio público. Não são poucos os que recorrem a tais estereótipos para classificar pichações, grafites, estênceis, stickers e lambe-lambes. A pesquisadora Milene Migliano oferece uma perspectiva diferente na leitura dessas intervenções. Na dissertação Diálogos públicos no Centro de Belo Horizonte – mapas de sentido em comunicação urbana, defendida em 28 de maio, tais manifestações foram encaradas como comunicação não-presencial, na qual as pessoas se apropriam do espaço público e participam da dinâmica da cidade.

Em sua dissertação, Milene observou três lugares: as praças da Estação e Sete e a Rua da Bahia

Em sua dissertação, Milene observou três lugares: as praças da Estação e Sete e a Rua da Bahia | Foto: Amanda Marchetti

Ela observou três lugares: as praças da Estação e Sete e a Rua da Bahia. “Considerei a cidade como suporte para uma comunicação compartilhada pelas pessoas que transitam por ela. Mas não é uma comunicação restrita ao ambiente urbano, podendo se ampliar para outros meios. Por exemplo, um grafite fotografado pode ser veiculado na internet. Ou, inversamente, uma figura retirada da internet pode ser utilizada como modelo de estêncil”, ressalta Milene Migliano.

A análise considerou os conceitos de estratégico e tático. O estratégico remete à cidade planejada. O tático é o uso não-programado de uma coisa ou lugar. “O melhor exemplo para compreender o tático é a sucata, que dá outra função a um objeto produzido”, sugere Milene Migliano.

 

Mapeando sentidos

A dissertação está inserida num projeto mais amplo, denominado Cartografia de sentidos do hipercentro de Belo Horizonte, desenvolvido por um grupo de pesquisadores do Centro de Convergências de Novas Mídias, sob a coordenação da professora Regina Helena Alves da Silva, do Departamento de História da Fafich. Eles adotaram metodologia batizada de derivas cartográficas, que consiste em transitar pelo centro da capital mineira registrando notas, fotos, vídeos e sons.

Os registros foram articulados nos chamados mapas de sentido, criando uma proposta de leitura dos usos do espaço público. A interdisciplinaridade do projeto permitiu que cada pesquisador direcionasse o olhar para um aspecto diferente. Milene Migliano focou suas observações nas interações mediadas pelos portões, muros, postes, orelhões, entre outros suportes. “Meus mapas de sentido tornaram visíveis algumas relações de sociabilidade urbana que se desenvolvem entre os territórios ocupados, as práticas de escrita na cidade e as temporalidades sociais”, explica Milene Migliano.

Pichação no Museu de Artes e Ofícios

Pichação no Museu de Artes e Ofícios | Foto: acervo de Milene Migliano

Um dos casos analisados foi a série de pichações registrada em 2005 na obra do Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação. Uma primeira inscrição indagava quando a construção seria concluída, o que motivou outras manifestações, entre elas uma que retrucava: “Isso não é da sua conta”. Pouco depois, nova pichação argumentava que aquela informação era do interesse de todos. Surgiu ainda uma outra intervenção que perguntava quanto a obra teria custado. Subitamente, elas foram apagadas. Entretanto, na mesma obra, uma pichação com outra temática foi mantida. “São situações carregadas de simbolismo. A intervenção preservada foi justamente aquela que, em tese, não incomodava as autoridades responsáveis pela obra”, diz Milene Migliano.

Derivas para vencer a passividade

O método das derivas cartográficas baseou-se nas derivas situacionistas, surgidas no final dos anos 50, na Europa, onde artistas, arquitetos, poetas e intelectuais buscavam formas diferenciadas de se apropriar da cidade. Eles fundaram o movimento situacionista contra a passividade e alienação, reivindicando uma transformação do cotidiano urbano através da participação e intervenção de seus habitantes.

Na época, a Europa do pós-guerra ainda estava sendo reerguida. Cidades eram reformuladas a partir de estruturas setorizadas. Críticos desse modelo, os situacionistas propunham a exploração do espaço público e de suas possibilidades, contrapondo-se aos usos predefinidos das cidades.

 

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Léo Rodrigues

Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

 

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