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Blocos de BH manifestam desconfiança com gestão do trânsito durante carnaval

 
Léo Rodrigues | 24/02/2017 - 12:16 Notícia publicada pelo Agência Brasil

Segundo os foliões, nos primeiros anos após a retomada dos blocos de rua em 2009 e em 2010, a BHTrans chegou a ser usada como instrumento pela prefeitura para criar dificuldades aos desfiles.

A Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) desenvolveu um planejamento para o carnaval deste ano levando em conta problemas vivenciados nas edições anteriores da folia. Uma rede de transporte especial foi criada, reforçando o quadro de horário das linhas de ônibus que levarão as pessoas a blocos de grande demanda, sobretudo nos horários previstos para o início e término dos desfiles. Outra decisão foi o de criar desvios fixos nos itinerários durante todos os dias da festa, fazendo uso de vias alternativas e evitando a área onde se concentra a maior parte dos desfiles. O objetivo é garantir que o usuário do transporte coletivo não fique confuso sem saber onde a linha irá passar.

Gerenciar o trânsito e o transporte no maior carnaval da história da capital mineira não será tarefa fácil. A cidade espera ter nas ruas 2,4 milhões de foliões. Mas a BHTrans tem ainda um outro desafio: superar um histórico de desconfiança na relação com os blocos. Segundo Deusuite Matos, diretora de Ação Regional e Operação da BHTrans, o diálogo está sendo produtivo. "Nós sentamos com todos os grandes blocos e mais outros diversos. Alguns deles inclusive definiram seus horários e seus itinerários a partir de recomendações da BHTrans. Estamos sentindo uma abertura muita grande por parte deles", conta.

Para chegar ao maior carnaval de sua história, Belo Horizonte contou com a mobilização de movimentos de ocupação do espaço público. Estes grupos, formados majoritariamente por artistas e estudantes, começaram a se organizar em 2009 para criar formas lúdicas de contestar medidas restritivas do poder público, em especial um decreto da prefeitura que proibia eventos na Praça da Estação, no centro da cidade. Pouco a pouco, os blocos foram surgindo e começaram a ampliar as pautas, discutindo temas como a tarifa zero nos ônibus, o déficit habitacional e o combate ao preconceito racial, ao machismo e à homofobia.

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  • Neste processo, a relação dos organizadores dos blocos com a prefeitura foi marcada por conflitos. "Até 2012, o poder público tinha uma postura reativa contra os blocos, inclusive com uso de força. A partir de 2013, a prefeitura aceitou o carnaval. Mas começou a querer se apropriar da festa e explorá-la comercialmente", diz Rafa Barros, integrante do Filhos de Tcha Tcha.

    Segundo os foliões, a BHTrans chegou a ser usada como instrumento pela prefeitura para criar dificuldades aos desfiles. Integrante de vários blocos, Guto Borges alega que a logística do transporte da cidade era estabelecida de forma a criar barreiras ao carnaval. "Claramente era um jogo de negativas. Havia proibições, BHTrans colocava empecilhos e a prefeitura ainda tentou vender a ideia de que os blocos eram intransigentes. Era um jogo perverso"

    Di Souza, maestro do Então Brilha, um dos maiores blocos da cidade, endossa as críticas. "O poder público ainda está entendendo como lidar com o carnaval da cidade. A Belotur [Empresa Municipal de Turismo] parece que está mais disposta esse ano. Mas a BHTrans é sempre complicado. Para tirar um ponto de taxi para o bloco passar é um sofrimento. A gente fica a mercê da boa vontade de algum diretor que está ali naquele ano e vai com a cara do bloco ou não", afirma. Para ele, a BHTrans demonstra mais boa vontade em organizar o trânsito para grandes eventos privados do que com o carnaval, que é uma festa espontânea e popular.

    Descentralização

    Criado em 2013 e pautando a necessidade da descentralização do carnaval da cidade, o Tchanzinho Zona Norte desfila no bairro Dona Clara, na região da Pampulha. Seus integrantes entendem que a oferta de transporte coletivo nos dias de carnaval para localidades distantes do centro foi insuficiente nos últimos anos. Para o regente do bloco Rodrigo Picolé, a prefeitura de Belo Horizonte parece agir com indiferença em relação ao carnaval que ocorre fora da região Centro-Sul. "Nas regiões periféricas da cidade, a população não é atendida como deveria", diz.

    Na opinião do folião, o poder público tem adotado a mesma lógica das empresas privadas. "No ano passado, a partir do patrocínio que a Ambev e prefeitura fecharam, foram colocados ônibus gratuitos para os foliões, mas eles só circularam na região Centro-Sul, nos limites da Avenida do Contorno. Este ano serão mais veículos, decorados com a identidade visual das cervejas da empresa. Esses ônibus atendem a demanda da propaganda, não a demanda da população que fica sem opções de locomoção. E infelizmente, a prefeitura de Belo Horizonte parece atuar da mesma forma com o transporte público, desprivilegiando as regiões periféricas da cidade", lamenta Rodrigo Picolé.

    Uma outra preocupação levantada pelos integrantes do Tchanzinho Zona Norte é com o metrô. O modal não é administrado pela BHTrans e sim pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). No ano passado, a organização do bloco fechou um acordo para a extensão no horário do funcionamento da estação Primeiro de Maio, que seria usada pelos foliões ao fim do desfile. Acontece que muitas pessoas não conseguiram embarcar e encontraram a estação fechada, o que gerou um enorme tumulto e ação da Polícia Militar.

    Na época, a CBTU divulgou nota dizendo que o acordo era para que os foliões se dirigissem à estação até 21h50, mas o primeiro grupo chegou apenas 22h30. Rodrigo Picolé diz que seguranças do metrô e policiais militares agiram com truculência. Ele espera que o episódio não se repita este ano. "Nós atrasamos 20 minutos e isso foi suficiente para eles descumprirem nosso acerto. E grande parte da responsabilidade desse atraso foi inclusive da BHTrans, que também não cumpriu o combinado para retirar os carros de uma das vias, dificultando o deslocamento do bloco", diz ele.

    Para este ano, a prefeitura fechou um acordo com a CBTU para que a estação Central fique aberta para embarque até às 2h da manhã durante os dias de carnaval. Na demais estações, o acesso será até 23h e, após esse horário, elas funcionarão apenas para desembarque. O Tchanzinho Zona Norte, que desfila às 16h de hoje (24), obteve a promessa de que a estação Primeiro de Maio terá o mesmo tratamento da Central. Excepcionalmente nesta sexta-feira, o embarque acontecerá até às 2h para atender o bloco.

     

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    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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