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Movimentos de ocupação do espaço público fizeram ressurgir blocos de rua de BH

 
Léo Rodrigues | 11/02/2017 - 20:58 Notícia publicada pelo Agência Brasil

Em 2009 e em 2010, jovens começaram a se mobilizar contra ações da gestão municipal. A principal queixa se relacionava com o Decreto Municipal 13.798/2009, que proibia eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, no centro da cidade.

Bloco Então Brilha tem como ponto de partida a Rua Guaicurus, reduto de prostíbulos no centro da capital mineira | Imagem: Então Brilha / Divulgação

Para quem gosta de pular carnaval, ficar em Belo Horizonte não era das opções mais atraentes até alguns anos atrás. O desfile das escolas de samba e algumas poucas atrações mobilizavam um público pequeno. O cenário, no entanto, mudou, e o número de blocos de rua da capital mineira não para de crescer. Segundo a Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), os festejos deste ano, que começaram hoje (11), terão 416 desfiles de 350 blocos cadastrados, 30% a mais que 2016.

Além dos moradores locais, a cidade espera cerca de 500 mil turistas. Eles passarão a fazer parte de uma história que remete a janeiro de 2010, quando movimentos de ocupação do espaço público começaram a se manifestar de forma lúdica contra ações da gestão municipal. A principal queixa se relacionava com o Decreto Municipal 13.798/2009, assinado pelo então prefeito Márcio Lacerda, que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, no centro da cidade.

A reação veio na forma do evento Praia da Estação, convocado pelas redes sociais. Centenas de pessoas, sobretudo artistas e universitários, se reuniram em um sábado para um piquenique na Praça da Estação. Os mais animados, vestidos de sungas e biquínis, se aventuraram a tomar banho nas fontes de água. A Praia da Estação começou a se repetir pelos fins de semana posteriores. O decreto foi revogado em maio de 2010, mas, até lá, a mobilização já tinha virado carnaval.

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  • Foi deste movimento lúdico que diversos blocos surgiram de forma espontânea em 2010, com epicentro no bairro de Santa Tereza. Eles se juntaram aos pioneiros Tico Tico Serra Copo e Peixoto, que haviam desfilado em 2009. O objetivo era ocupar as vias públicas de forma festiva. Em 2011, os desfiles de aproximadamente 20 blocos chamaram a atenção dos moradores. De 2012 em diante, o número de blocos só cresceu.

    Reivindicações

    Os participantes levavam para os desfiles faixas, estandartes, cartazes e camisas com pautas de diversos movimentos que se propõem a repensar a cidade, tais como a tarifa zero nos ônibus, a regularização das ocupações de sem tetos e o combate ao preconceito racial, ao machismo e à homofobia. "Quando a luta pelo uso do espaço público ganhou a cidade, outros movimentos sociais perceberam que também podiam usar a folia para dar visibilidade para suas pautas", avalia a cineasta Dandara Andrade, diretora do documentário BH no Ritmo da Luta, que aborda o ressurgimento dos blocos de rua em Belo Horizonte.

    O debate político é combustível para blocos como o Então Brilha que, em 2011, organizou uma bateria para desfilar e escolheu como ponto de partida uma via marginalizada do centro da cidade, a Rua Guaicurus, reduto de prostíbulos. No último carnaval, ele arrasta cerca de 80 mil foliões. O ponto de referência do bloco é o Hotel Brilhante, uma das muitas casas de prostituição no local.

    A escolha não é ao acaso. Os participantes do Então Brilha defendem a diversidade e a inclusão das minorias. Letras de músicas famosas são subvertidas. Em vez de cantar o amor de Romeu e Julieta, os integrantes exaltam o amor de Romeu e Romeu e de Julieta e Julieta. "As pessoas ocuparam as ruas, mas ainda há um questionamento sobre quem está na rua. Porque o carnaval é puxado e feito em sua maioria pela classe média. Então, hoje a gente precisa pensar outras questões: como enegrecer os blocos, como aproximar a periferia da festa, dar voz às minorias", avalia Di Souza, maestro do Então Brilha.

    SAIBA MAIS SOBRE O ENTÃO BRILHA E O DESFILE EM 2017 NESTA REPORTAGEM DA RADIOAGÊNCIA NACIONAL:

    Uma característica do carnaval da cidade é a diversidade de ritmos. Há blocos para quem gosta de samba, marchinha, axé, afoxé, rock, reggae, sertanejo, pagode, funk, entre outros. Incorporar novos públicos através de uma aposta original foi um dos objetivos do Tchanzinho Zona Norte, estreante em 2013. Seus desfiles se dão ao som de clássicos do axé de bandas comerciais como É o Tchan e Asa de Águia. "É uma brincadeira com esse tipo de repertório, que muitas vezes sofre uma desvalorização. Fazemos uma abordagem irônica e divertida", diz Rodrigo Picolé, regente do bloco que deve receber 20 mil pessoas.

    Tchanzinho Zona Norte surgiu com a preocupação de descentralizar o carnaval de Belo Horizonte | Imagem: Tchanzinho Zona Norte / Divulgação

    Mas esta não foi a única questão que motivou a criação do Tchanzinho Zona Norte. Seus integrantes defendiam a descentralização da folia. "Queríamos fazer um desfile um pouco mais distante da região Centro-Sul, onde o carnaval acontecia majoritariamente e onde os blocos reúnem em grande parte a classe média", diz Rodrigo Picolé. O Tchanzinho Zona Norte foi apenas uma das muitas iniciativas que levaram moradores da cidade a conhecer novos bairros e regiões. No carnaval deste ano, o Barreiro é a única das nove regionais de Belo Horizonte que não possui blocos cadastrados na Belotur.

    Também buscando estimular a descentralização do carnaval, o bloco Filhos de Tcha Tcha organizou, em 2015, um desfile na Ocupação Izidora. Na comunidade que surgiu em 2013, vivem 8 mil famílias constantemente ameaçadas de despejo."Aqui tem família, trabalhador, crianças. O bloco ajuda a mostrar para a cidade que nós existimos e não precisamos ser tratados com preconceito", diz uma moradora não identificada em entrevista ao documentário BH no ritmo da luta.

    Marchinhas

    Com o crescimento, o carnaval da cidade é desfrutado por públicos diversificados, muitas deles alheios a esta história. Mas diversos foliões seguem se mobilizando contra medidas que consideram restritivas em relação à ocupação do espaço público. No ano passado, às vésperas do carnaval, o alvo foi uma nova medida assinada pelo ex-prefeito Márcio Lacerda, que entrava em seu último ano de governo. O Decreto 16203/2016 proibia "o uso de recipientes de refrigeração ou similares, churrasqueiras, grelhas, assadeiras e utensílios que gerem fogo ou chamas em logradouros públicos, exceto quando devidamente licenciados".

    Imediatamente foi convocado um "Churrascão e Isoporzaço", que reuniu centenas de pessoas na Praça da Estação. Uma marchinha intitulada Prefeito, libera o cooler ganhou as redes sociais. A pressão levou à revogação do decreto, que encerrou sua curta vida com apenas sete dias de existência.

    A produção de marchinhas politizadas e sarcásticas é, inclusive, outro ingrediente do carnaval de Belo Horizonte. Desde de 2012, a produtora Cria Cultura realiza o esperado Concurso Mestre Jonas. "O evento entrou no calendário da cidade. Já fica todo mundo esperando pela marchinha vencedora", diz o folião Guto Borges. Ele é integrante de diversos blocos, incluindo o pioneiro Tico Tico Serra Copo, e também um dos compositores de Imagina na Copa, marchinha vencedora em 2013 que aborda conflitos sociais decorrentes da realização Copa do Mundo no Brasil, tais como as desapropriações.

     

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    O EDITOR


    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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