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Em tempos de crise da água, obras do Rio 2016 transitam entre exemplo e polêmica

 
Léo Rodrigues | 26/03/2015

Obra da Linha 4 do Metrô é referência em sustentabilidade, mas outras construções são polêmicas com alto gasto de água e promessas não cumpridas

Decantadores integram sistema de tratamento da água na obra da Linha 4 do Metrô, que irá ligar a Barra da Tijuca à Gávea | Imagem: TV Brasil

A preocupação com a sustentabilidade na organização das Olimpíadas de 2016 tem sido enfatizada por diversas autoridades do Comitê Olímpico Internacional (COI) e do governo brasileiro. No entanto, num momento em que o país atravessa uma crise hídrica, é possível observar que há obras mais e menos comprometidas com o racionamento da água.

Entre as obras vinculadas ao projeto do Rio 2016, a Linha 4 do Metrô surge como uma referência em reúso de água. "Temos recebido visitas de técnicos de outras regiões do país que querem copiar o nosso padrão de sustentabilidade", garante Carlos Osório, secretário estadual de transporte do Rio de Janeiro. Um dos compromissos do Governo do Rio de Janeiro com o Comitê Olímpico Internacional (COI), o empreendimento permitirá o deslocamento de passageiros da Barra da Tijuca até Ipanema. Dali, poderá ser realizada conexão com outras linhas do Metrô.

Na obra, a água utilizada pelos equipamentos de perfuração e resultante da escavação dos túneis é tratada e totalmente reutilizada. Segundo informações da Concessionária Rio Barra S.A, desde 2011, cerca de 200 milhões de litros passaram pelas estações deste trecho - o que daria para abastecer 18,3 mil casas por um mês. O maior consumo de água é do jumbo, maquinário responsável pelas perfurações para colocação dos explosivos na rocha, que gasta cerca de 10 mil litros de água por hora. Depois de utilizada, a água passa por decantadores a cada 300 metros e passa por um tratamento para então ser reutilizada no próprio equipamento.

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  • Matéria da TV Brasil, com produção de Léo Rodrigues e reportagem de Paula Ottoni
  • Para não haver perdas, a água gasta na obra também é reutilizada para a lavagem dos caminhões e máquinas e para a umectação dos canteiros e de ruas do entorno, com o objetivo de reduzir a poeira gerada pela obra e assim minimizar o volume de partículas no ar e, consequentemente, o incômodo para a comunidade. Outro componente importante do sistema de tratamento é a caixa separadora de água e óleo. Há um sistema para captar até as gotinhas que caem do ar condicionado, o que rende cerca de 75 baldes por semana e que servem para lavar banheiros e limpar as botas dos funcionários.

    O engenheiro mexicano Armando Salazar Cortez, atualmente doutorando na Universidade Nacional de Singapura, integrou uma delegação de profissionais que veio ao Brasil conhecer de perto as obras vinculadas ao Rio 2016. Ele considerou a obra da Linha 4 um trabalho exemplar em termos de economia de água. "Está tudo em conformidade com os princípios básicos da gestão ambiental, apresentando sistemas para tratamento de água e seu reaproveitamento, assim como estruturas para coleta de água da chuva", relatou.

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  • Segundo Armando, em projetos desenvolvidos em áreas montanhosas, se usa água do lençol freático que geralmente não é um recurso limitado. Por isso, não há uma atenção grande voltada para o racionamento. "Aqui encontramos uma tecnologia que foi uma novidade para nós. Ela permite o aproveitamento de água do sistema de refrigeração, o que pode vir a ser uma economia significativa, já que a umidade dentro dos túneis é considerável".

    Metas

    Pelas informações disponibilizadas no Portal da Transparência, todas as obras vinculadas às Olimpíadas de 2016 precisam estar vinculadas a ações sustentáveis. Uma das ações previstas, por exemplo, é a construção de áreas verdes junto às instalações, que deverão ser totalmente irrigadas com água cinza e água de chuva.

    Na sede do Comitê Rio 2016, as metas estão sendo cumpridas. O uso de água da chuva foi responsável por 13% de todo o consumo de 2014. "É preciso que no planejamento das obras se calcule não apenas aquilo que vamos comprar, mas também aquilo que irá gerar economia posteriormente. Boa matemática, dá boa sustentabilidade", diz Tânia Braga, gerente geral de sustentabilidade do Rio 2016.

    No entanto, nem toda meta prevista será cumprida. O Portal de Transparência cita o Plano Nacional de Saneamento Básico, aprovado em 2008, que recebeu o aporte de US$ 4 bilhões para despoluir a Baía de Guanabara. O objetivo inicial era garantir, até 2016, o tratamento de 80% do esgoto captado nos 13 municípios do entorno. Em janeiro, porém, o secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, avisou que a meta não seria atingida. Segundo dados do Governo do Rio, 49% do esgoto que era jogado na Baía já está em tratamento.

    A falta de vontade política é apontada como responsável da situação por David Zee, ambientalista e professor do Departamento Oceanografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Para ele, seria possível cumprir a meta inicial se houvesse disciplina e planejamento. "O compromisso não se traduziu em trabalho permanente. Estações de tratamento que foram praticamente concluídas aguardam, há mais de um ano, apenas canalizações para fazer o esgoto chegar. Estas estações de tratamento prontas estão operando abaixo da sua capacidade máxima", critica.

    Promessa não cumprida

    Outra ação do Rio 2016 elencada no Portal da Transparência é a construção de "instalações do Centro Olímpico de Treinamento (COT), da Vila Olímpica e Paralímpica e do Parque Radical com unidades independentes de tratamento de esgoto". O COT é um dos legados previstos e será um espaço estruturado após o evento, que reunirá seis das nove instalações esportivas que compõem o Parque Olímpico. Esta estrutura será voltada para a preparação de atletas de alto rendimento.

    Não há, no entanto, nenhuma obra em curso de unidade independente de tratamento de esgoto no Parque Olímpico, na Vila Olímpica e Paralímpica e no Parque Radical. Tampouco há previsão de construção após o evento esportivo, quando o COT for estruturado. Em nota, a Empresa Olímpica Municipal informou que a unidade "não será construída nem após os Jogos Olímpicos porque não há necessidade" e acrescentou que "a rede de esgoto das instalações será conectada à rede da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), que vai tratá-lo em suas estações".

    Segundo especialistas, o descumprimento da promessa não traz impactos significativos. É o que garante Gandhi Giordano, engenheiro sanitário e professor da UERJ. "Estações independentes existem quando há deficiência de atendimento da rede coletora. Mas é sempre melhor tecnicamente e também mais econômico operar estações de tratamento de médio ou grande porte. Sistemas decentralizados, muitas vezes, não recebem a atenção necessária e não atingem os padrões exigidos", explica.

    Miguel Mansur Aisse, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e secretário-geral da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), concorda que não há grande prejuízo na mudança de planos. No entanto, em pelo menos um aspecto, a construção seria benéfica. Estações de tratamento de esgoto menores provocam um aumento nos gastos com pessoal, mas pode trazer uma economia nos custos do transporte do líquido. "É uma questão de comparação de valores e [estas estações menores] são consideradas um ônus financeiro para as empresas em geral, que precisariam arcar com os custos de operação", avalia ele.

    Alto gasto de água

    A partir de 1992, as Olimpíadas passaram a usar circuitos artificiais para Canoagem Slalom com o objetivo de garantir igualdade para todos os competidores. Isso porque, na natureza, uma corredeira pode beneficiar um atleta em detrimento de outro. Mas esta decisão tem um custo elevado para um país que passa por uma crise hídrica. Para o Rio 2016, o circuito está sendo erguido no Complexo Olímpico de Deodoro. Ele consumirá 26 milhões de litros de água, o que daria para abastecer mais de duzentas mil pessoas em um dia, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

    Questionada sobre o alto volume, a Empresa Olímpica Municipal enviou nota enfatizando a existência de padrões internacionais rígidos para a construção do circuito e garantindo sua sustentabilidade. A água utilizada não se perde. Como o circuito é cíclico, a mesma água será usada indefinidamente durante toda a competição.

    A única alternativa à obra seria levar a competição para Foz do Iguaçu, onde já existe um circuito artificial que recebe provas da modalidade. Essa opção foi inclusive indicada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para minimizar os gastos. O prefeito Eduardo Paes, no entanto, revelou nesta semana que o COl pediu para que a canoagem slalom não ficasse isolado. "Seria quase um preconceito com o esporte fazer em outra cidade", disse.

    Sustentabilidade

    A sustentabilidade começou a influenciar a organização das Olimpíadas com a escolha de Pequim para sediar o evento em 2008. Os altos índices de poluição atmosférica da cidade repercutiram negativamente no noticiário esportivo internacional. Preocupações com a saúde de atletas e turistas forçaram o governo chinês a estabelecer um conjunto de medidas para amenizar a situação alarmante da qualidade do ar.

    De iniciativas pontuais, a ideia de uma Olimpíada planejada para ser sustentável foi adotada pela primeira vez em Londres 2012. Ainda assim, o não cumprimento de diversas metas, o alto custo do evento e a construção de megaestruturas que posteriormente se tornaram subutilizadas colocaram em questão este planejamento.

    As situações de Londres e do Rio já geraram uma reação do COI, que estuda alguns passos para minimizar críticas sobre gestão e sustentabilidade em futuras edições do evento. Uma primeira iniciativa se deu em dezembro do ano passado, quando uma reunião em Mônaco aprovou a implementação de 13 alterações no processo de escolha da sede de 2024. Em nota, o COI explicou que as mudanças visam "adequar a entidade à nova realidade social e econômica da sociedade". As candidaturas precisarão apresentar um plano de redução de custos e de incentivos à sustentabilidade, dando maior ênfase à questão climática.

     

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    O EDITOR


    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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