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Liberté, Egalité, Fraternité: reflexão sobre o caso Charlie Hebdo

 
Léo Rodrigues | 10/01/2015 Artigo

O humor não pode ter carta branca. Mas infelizmente, há sempre os bastiões do "absolutismo da liberdade de expressão", que é tão perigoso quanto essa mesma censura prévia, ideológica e econômica que dizem combater

Charges publicadas por Charlie Hebdo | Imagem: Divulgação

Muito defensor de Liberté pra pouco defensor de Egalité e Fraternité. Assim resumiu uma amiga os debates que se seguiram após o lamentável e condenável episódio que terminou com a morte de 12 profissionais do jornal francês Charlie Hebdo. O terrorismo não é justificável. Nem por isso se deixar levar pelo ambiente emocional e fazer homenagens cegas às vítimas irá contribuir para entender o momento e evitar tragédias semelhantes no futuro.

De repente, a "liberdade de expressão" se tornou um valor jurídico absoluto, mais importante até do que o direito à vida. Há países onde há pena de morte (o que a meu ver é reprovável). Mas mesmo onde esse dispositivo não existe, há situações em que o direito à vida é relativizado. Se os cartunistas estivessem em condições de revidar o ataque e matassem os terroristas, seriam obviamente absolvidos pela justiça. Em legítima defesa, qualquer ser humano pode tirar a vida de seu agressor. Além disso, a polícia, em situações específicas, tem licença para matar, como no caso em que um sequestrador mantém sob a mira de um fuzil diversos reféns.

Mas e daí? E daí que se nem o mais elementar dos direitos civis é absoluto, porque a liberdade de expressão o seria? E de fato não o é. Todos os países que prezam pelos valores democráticos como a "liberdade de expressão" possuem mecanismos de limitação para equacionar os direitos e deveres do cidadão. Você não pode caluniar, difamar, promover racismo e intolerância religiosa e até mesmo plagiar textos, desenhos etc. Há dispositivos jurídicos para punir quem adota tais condutas. E tudo isso constitue-se como limitações da "liberdade de expressão". Repare que são limitações positivas que em nada tem a ver com censura prévia, ideológica e econômica, essas sim reprováveis.

Infelizmente, há sempre os bastiões do "absolutismo da liberdade de expressão", que é tão perigoso quanto essa mesma censura prévia, ideológica e econômica que dizem combater. Não acho que se deva impedir ninguem de falar o que quiser, mas se falou e incorreu em crime, deverá responder pelos seus atos a posteriori. Infelizmente não é o que acontece sempre.

A Revista Veja, no último período eleitoral, publicou uma reportagem de capa às vésperas do pleito afirmando que o doleiro Alberto Youssef confirmou em depoimento que Dilma e Lula sabiam de todos os detalhes dos escândalos da Petrobras. Só que o doleiro desmentiu, o seu advogado afirmou desconhecer este depoimento e a publicação nunca apresentou provas como uma gravação, documento ou mesmo o nome de uma fonte confiável que pudesse atestar a veracidade da matéria. Uma mentira que poderia ter alterado o quadro do país de forma permanente e que, pelo visto, passará sem punição. Casos como esse não podem ficar isentos de penalidades e aqueles que criticam o que chamamos de "controle social da mídia" apenas legitimam o direito à mentira, à calúnia e aos demais crimes de comunicação.

Voltando ao caso da Charlie Hebdo, trarei apenas um exemplo do quanto seu trabalho era criminoso. Em 2012, foi lançado em diversos países do mundo o filme A Inocência dos Muçulmanos, que levou para as telas um grupo de islâmicos atacando uma cidade e todos os que professavam a fé em uma religião diferente. Uma bela garota com a cruz no peito é assassinada. Maomé é representado da pior forma, brigando por pedaços de carne. Há cenas em que aparece fazendo sexo oral. O diretor da obra, um judeu estadunidense pró-Israel, chegou a declarar que “o Islã é um câncer e ponto final”.

Obviamente, a obra gerou um rebuliço no mundo islâmico e milhares foram às ruas protestar. Não, não eram todos extremistas. Na maioria foram às ruas islâmicos normais, exercendo sua cidadania, manifestando-se contra um filme que os estereotipa da pior maneira possível.

E o que faz Charlie Hebdo? Na esteira da polêmica, publica uma charge de Maomé nu. E a pergunta é: esta charge traz alguma contribuição para uma cultura de paz, respeito às diferenças e tolerância religiosa? Ou ela apenas provocou mais exaltação? A resposta está numa simples pesquisa no Google: clicando aqui você pode conferir as notícias sobre protestos no mundo inteiro contra a postura do jornal. E não, de novo não foram os extremistas que saíram em manifestação pelas ruas. Eram fiéis pacíficos, assim como protestaram católicos pacíficos quando, em 1995, um pastor da Igreja Universal deu um chute ao vivo na Rede Record em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A charge e o chute se equivalem. E só fomentam intolerância religiosa, que causa mortes.

Acontece que os radicais islâmicos acompanham toda esta movimentação. E mesmo que a imensa maioria dos muçulmanos reprove as ações jihadistas, estes terroristas se sentem legitimados a agir diante do descontentamento geral. E aí entra o crime desta charge e de toda a cruzada anti-islâmica da Charlie Hebdo. Elas não provocam reflexão alguma. Ao contrário, são provocações gratuitas que apenas fomentam o descontentamento e confronto, alimentando o preconceito, o desrespeito, a xenofobia e a intolerância religiosa já presentes na sociedade. E tudo isto mata!

Lembrem-se que as maiores vítimas desse clima de confronto não são franceses, ou estadunidenses, ou de nenhum país ocidental. São muçulmanos que vivem neste fogo cruzado. E no mesmo dia do ataque à Chales Hebdo, 30 pessoas morreram no Iemen vítimas de outra ofensiva terrorista. Como acontece praticamente toda semana. E não há por parte das pessoas a mesma comoção, as mesmas campanhas nas redes sociais de homenagem às vítimas, etc. Os mortos no Iraque e no Afeganistão não recebem igualdade no tratamento. Por que isso acontece? Por que matam pessoas com as quais não nos identificamos? Por que é normalizado? Onde está a egalité? A egalité só vale para os amigos dos países ocidentais?

Chamo atenção mais uma vez para os protestos contra o filme e contra a charge. Como se pode perceber na rápida pesquisa ao Google, muita gente foi para as ruas. E aí eu te pergunto: sentado nos sofás de nossas salas no ocidente, podemos ignorar as vozes que vem do oriente? Fingir que não existem? Eles estão lá pedindo respeito aos seus credos, criticando os estereótipos criados, e nós vamos tratá-los como fantasmas? Não pedimos tanto para que os governantes escutem as vozes das ruas? Só vale pra gente? Pro outro não vale nada? Onde está a fraternité?

Levanto todas estas questões porque penso que construir um mundo de respeito às diferenças e de tolerância religiosa é um esforço de todos nós. E deve nos forçar a um exercício cotidiano de nos colocar no lugar do outro. E sabendo que o oriente e ocidente operam de forma totalmente distintas, nos colocar no lugar do muçulmano é uma tarefa das mais complicadas. Seus códigos são muito diferentes. E por isso, todo cuidado deve ser redobrado em qualquer enquadramento que fizermos.

Não nos esqueçamos que a religião muçulmana é marginalizada a nível global. No Oriente Médio, o exército estadunidense joga bombas a esmo sem se preocupar se civis estão entre os alvos. Na Europa e na América, imigrantes e mesmo ocidentais islâmicos não podem dar dois passos sem um olhar torto de desconfiança. Me lembro quando estive em Londres, há alguns anos, e vi várias pessoas se recusando a adentrar um ônibus porque o motorista era muçulmano. "Seria um homem-bomba?", provavelmente pensavam. Por isso, fazer humor com categorias marginalizadas não é nunca um trabalho digno. É pisar no mais fraco. Negros, homossexuais, islâmicos são categorias marginalizadas. Quando se faz piadas com eles, se legitima a atmosfera de preconceito. E se amanhã alguém é espancando por ser negro, homossexual, ou islâmico, o humorista tem sim sua parcela de culpa.

Como bem li em um artigo do blog "em tom de mimimi", não vale a desculpa de que a crítica não teve o intuito de generalizar. Desenhar muçulmanos sempre com armas na mão, como fazia Charlie Hebdo, e dizer que se está retratando apenas os terroristas é como desenhar um negro assaltante e dizer que não se está representando todos os negros, apenas os que roubam. Quando tratamos de povos marginalizados, os estereótipos se fixam e contribuem para ampliar a marginalização. E é esse ambiente que favorece a violência contra estas pessoas.

Mas então não se pode criticar religiões? Penso eu que tudo é uma questão de contexto. Porque obviamente todas as religiões têm aspectos conservadores e criticáveis. Resgato aqui uma reflexão proposta por Alan Gresh, redator do Le Monde Diplomatique, que tomei conhecimento no texto do cronista Antônio Martins: seria aceitável que um jornal alemão de 1931 fizesse charges criticando o conservadorismo do judaísmo, religião que já vinha sendo subjugada pelo governo nazista? A quem serviria essa crítica? Obviamente, naquele momento, serviria apenas ao antissemitismo e seria extremamente irresponsável.

A postura de Charlie Hebdo é ainda mais reprovável e criticável porque cultivavam o hábito de satirizar a cultura (e não as estruturas de poder) islâmica. Reparem também que as religiões se tranformam de dentro para fora. Foi preciso décadas de críticas de fiéis e da sociedade em que está inserida para que a Igreja Católica revesse alguns dogmas e tivesse um papa menos conservador. Se alguém tem força pra mudar o Islã, são os muçulmanos e o mundo islâmico. E aí charges desse tipo, ao invés de instigar uma reflexão no povo muçulmano, apenas geram a sua indignação. Ou seja, não contribui em absolutamente nada para pôr em questão a forma como o Islã usa seu poder, apenas joga contra, estimula o confronto, o anti-islamismo, a xenofobia e sim, isso mata!

Repito: as charges de Charlie Hebdo não trouxeram reflexão alguma e só provocaram exaltação dos ânimos. A quem favorece essa exaltação de ânimos? Creio eu, à extrema-direita e ao discurso anti-islâmico. Violência gera violência, não importa se verbal ou física. Preconceito, intolerância religiosa e desrespeito à cultura alheia é violência. E portanto deveriam ser punidos no âmbito judicial. Sob pena de acharmos que a liberté, é mais importante que a egalité e fraternité. Não é! E os tribunais franceses poderiam ter evitado essa tragédia se tivessem tomado medidas contra os excessos do jornal.

Charlie Hebdo parece querer passar a ideia de que está acima do bem e do mal. E agora, há pessoas transformando o jornal em um símbolo da luta contra o mal. Esta polarização de bem x mal na caça aos terroristas foi usada habilmente pelos exércitos ocidentais para provocar guerras no Iraque e no Afeganistão, que deixaram pelo menos 200 mil mortos, dos quais muitos civis. Transformar Charlie Hebdo no emblema da luta contra o mal, sem analisar e entender as facetas do humor que praticavam, apenas fará mais mortos. Mas é como se estas milhares de vidas do Oriente Médio não tivessem o mesmo valor que 12 vidas francesas. O humor não pode ter carta branca. Egalité, Fraternité!

 

  • Recomenda-se também as seguintes leituras sobre o tema:
  • - Blog "em tom de mimimi" | Je ne suis pas Charlie

    - Portal Outras Palavras | Morte em Paris

    - Carta Maior | Entre a liberdade sem limites e a liberdade de estabelecer limites

    - Boaventura de Sousa Santos | Charlie Hebdo: Uma reflexão difícil

     

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    Léo Rodrigues

    Repórter da Agência Brasil, formado em Comunicação Social pela UFMG em 2010. Ex-jornalista da TV Brasil e do Portal EBC, onde também atuou como editor de esportes. Diretor de documentários cujo foco de interesse é a cultura popular, entre eles os longas "Aboiador de Violas" e "Pra fazer carnaval mais uma vez". Saiba mais

     

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